19.4.17

esta coisa do "a vida continua" é uma valente merda.


Passou pouco mais de uma semana, a verdade é que eu continuo a sentir-me anestesiada. Como se estivesse à espera que alguém me venha acordar e dizer que tudo isto não passou de um sonho. Um sonho mau.

Uma semana depois, muitas são as pessoas que esperam que ja toda eu seja sorrisos e que cumpra toda uma agenda de compromissos, apresentações e eventos. Não consigo. Estou a tentar, no dia após o funeral do meu pai fui enfiar-me no escritório a trabalhar. Tinha passado o fim-de-semana todo num sofrimento e precisa respirar outro ar, ouvir outras conversas, tentar esquecer a realidade. Claro que correu mal, no dia seguinte ninguém me tirou de casa. Não queria ver ninguém (continuo a querer estar com muito pouca gente para ser sincera), não queria atender o telemóvel, não queria sorrir. Queria estar apenas ali, no meu canto, a tentar pensar em como mudou a minha vida, assim tão de repente. 
Nessa mesma semana, tive o meu primeiro compromisso do blog, um evento, onde é suposto ir-se gira, sorrir às pessoas e às fotografias, e eu fiz tudo. Se pensar bem, acho que não me portei mal e que fiz aquilo que me foi pedido. Uma grande amiga, que me conhece como poucos, escreveu-me a dizer apenas: "ai minha Mia, os teus olhos. Eles não mentem". Claro que não. Os meus olhos mostram toda esta tristeza que eu estou a sentir.
Cheguei a casa e chorei imenso, só eu sei o que me custou, aquela coisa de ter de dizer às pessoas que "vou indo" e que agora "é esperar que o tempo ajuda". O tempo não ajuda nada. Neste caso, só dificulta. A saudade aumenta cada vez mais, bem como a certeza de que nunca mais vou ouvir o meu Pai chamar-me "Maria André". 

As pessoas lidam todas de forma diferente com a dor, há quem evite falar e expressar os sentimentos de forma a fugir a essa realidade. Eu preciso de "deitar tudo cá para fora". Caramba, tenho 36 anos, no dia em que os completei tinha o meu pai numa cama de hospital. Não nos sentámos à mesa, todos juntos, como sempre aconteceu, não tive um bolo, não cantámos os parabéns, e no entanto ele ainda cá estava e só isso me fez feliz. Com esta idade, dou-me ao direito de dizer que estou triste, na merda mesmo, que na maior parte dos dias, vejo-me num desespero enorme para sair da cama, que dou por mim a chorar quando vejo o nome dele no ecrã do meu Tmv (ainda não consegui alterar o nome de Pai para Mãe e acho que sinceramente não o vou fazer). 
Toda a gente me diz que eu tenho de ser forte, por mim, pelas minhas irmãs, pela minha Mãe. A sério, e não me levem a mal, mas há mais de 10 meses, quando a vida de todos nós mudou, que me andam a pedir isso e eu não consigo arranjar mais forças. Há dias em que sou obrigada a isso, mas sinto-me no limite. Já falei aqui no direito que todos nós temos a sentirmos-nos tristes, pois deixem-me sentir esta tristeza, chorar quando sinto necessidade disso, escrever que sinto saudades dele. Ao longo da minha vida, algumas vezes percebi que me prejudiquei por expôr demais os meus sentimentos, mas a verdade é que eu sou mesmo assim, deste jeito. Tenho muita dificuldade em disfarçar as coisas, isto não quer dizer que ande para aí a contar as minhas desgraças a toda a gente mas se estou triste, estou triste, paciência, temos pena. Por isso permitam-me neste momento fazer o meu luto e soltar cá para fora a enorme revolta que sinto por ter perdido o maior pilar e referência que tinha na vida.

Todo este desabafo para vos dizer que eu estou a voltar, aos poucos, do jeito que eu sou capaz. Uns dias com sorrisos, outros com uns olhos mais pequeninos e com algumas lágrimas.Mas sempre grata por todo este carinho extraordinário que eu tenho recebido e que tão bem me tem feito. Partilhas de pessoas que passaram pelo mesmo que eu, que sentem a mesma dor, a mesma tristeza, a mesma saudade. Acreditem, é uma dor que só mesmo quem passa sabe o que significa.
Acredito que vou ser capaz de encontra a paz que preciso para continuar a viver os meus dias, junto dos meus, porque eu sempre fui uma pessoa positiva e, apesar de a vida me ter pregado tantas partidas no ultimo ano, eu sei que há algo muito bom ainda à minha espera. 

Com amor,
Mia 


12 comentários:

  1. Força Mia. ... são dias complicados.
    Faz hoje 8 dias que "enterrei" a minha avó com 91 anos. Foi ela que me criou.
    É a lei da vida...é. .. mas nunca estamos preparados para perder alguém que amamos tanto.
    Bjs e força.

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  2. Tão mas tão eu.
    Tinha 40 anos quando perdi o meu pai, eu a menina do papá, fiquei sem o colinho sem o mimo sem o tom carinhoso de me chamar Teresinha.
    A unica safa era o meu filhote com 11 anos que se sentia tão triste como eu e que me pedia mãe não chores olha que o avô fica triste.
    Ainda hoje 14 anos depois sinto uma saudade e uma tristeza enorme .
    Não passa com o tempo acalma talvez.
    Um beijinho e que aos poucos o sorriso dure mais tempo que a tristeza no seu rosto
    Teresa Batista

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  3. Mentiria se dissesse que sei o que sentes. Não sei. Mas entendo. E entendo ainda mais quando dizes que também tu tens o direito de te sentir triste e não sorrir, e não ser forte, sempre. É normal que o sintas. Costumo dizer que sentir é bom, mesmo que seja algo mau. Sentir é o que nos distingue enquanto pessoas. Sentir é uma dádiva. Infelizmente nem toda a gente se dá ao luxo de se permitir sentir. Muitos nem sentimentos terão, eu acho. Por isso, normal é que te sintas assim. Não seria normal se, tendo esse sentimento por ele, não te sentisses assim. As pessoas deverao permitir-se sentir. Aproveitar cada sentimento faz parte da nossa evolução. São etapas pelas quais precisamos passar. Eu sei que tu sabes isso. Nem toda a gente o entende. Por isso, continua a ser tu, a viver os teus sentimentos,por ti, apenas por ti, porque o que tu sentes ninguém o pode sentir. Sei que és forte e estarás de volta com tudo o que tens aulas dentro. Eu gosto mt de ti. Esperarei por mais textos e mais partilhas tuas. Beijinho grande 💋

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  4. Em 8 meses enterrei 3avos. Foi duro. Passaram 2anos ou 3, nem sei bem porque tantas vezes sinto que foi ontem à despedida. Não podemos disfarçar o que é real, e a Mia parece-me alguém verdadeiro e empático! Acredite que com o tempo as saudades darão lugar a memórias mas sempre, sempre concomitantes com uma eterna vontade de estar com quem já não está. Beijinho

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  5. Coragem perdi o meu pai à 15 anos tinha eu 39 anos e nunca mais fui o que era mas aprendemos a viver com as recordações a saudade e é um dia de cada vez força

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  6. Um abraço apertado do tamanho do Mundo, deve ser um dor enorme, dificil de aguentar!!!!! Ninguém devia passar por isto....!!!!!!

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  7. Perdi o meu pai tinha 27 anos.
    Foi a maior dor que até hoje senti.
    Passaram 8 anos e continuo com o número de telefone na lista de telefónica, continuo a olhar para os carros iguais aos dele, continuo a ver gente parecida....continuo a sonhar que um dia estaremos novamente juntos.
    O Cancro, esse sacana, levou o meu Pai, mas não levou as memórias maravilhosas que a vida me deu. A sorte de ter um Pai como o meu será sempre o meu maior orgulho e a minha bandeira.

    Desejo-lhe muita força com a convicção que o tempo vai ajudado a aceitar esta perda...
    Um grande beijinho no coração

    Maria João

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  8. Eu lido com a minha dor em solidão, preciso mesmo de me afastar e ter momentos só comigo e faço como que uma introspecção. Choro, grito e peço forças a Deus.
    No próximo mês faz 2 anos que perdi o meu pai, sem qualquer preparação o meu chão fugiu. Dói muito aceitar e quando esta dor se atenua transforma-se em saudade, uma saudade sem fim.
    Mas cada um gere a sua dor e a saudade de formas diferentes, tens que encontrar a tua, seja qual for não a evites porque acho que só assim se consegue continuar em frente.
    Ainda hoje mantenho o contacto no telefone gravado como "Pai casa" e "Pai do mundo"
    Obrigada pelo teu testemunho e por deixares partilhar o meu.
    Beijo e abraço apertado.

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  9. Perdi o meu pai a minha avó e avô paternos em 7 meses. Tinha 23 anos. Passaram 15 anos e estão sempre na minha memória. Às vezes sonho que o meu pai está vivo e acordo com essa ideia até que... Volto á realidade. Paciência e quem é teu amigo tem de entender que a dor não tem tempo limite, o que acontece é que chega a um ponto e aceitas a ausência e começas a voltar á rotina, mas as saudades nunca nos deixam...

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  10. O meu avô faleceu em 2012 e eu não soube lidar com o luto achei-me forte. Já estava à espera, já estava a contar que mais tarde ou mais cedo isto acontecesse, o homem cheio de vida ficou acamado, a última vez que o vi e que lhe falei não aguentei e chorei, estava amarrado a uma cama de hospital porque tinha convulsões e tinham receio que ele caisse, quando não era as convulsões ele tentava sair aos trambolhões dali. A última vez ele tentou falar-me mas a medicação não deixava, tentou mas não percebi, não dava para perceber. Avisei a minha mãe que o melhor seria vir a Portugal. Era dia 2 de Julho fui busca-la ao aeroporto pelo caminho tentamos ter uma conversa animada para não pensar muito no assunto. Chegamos a casa apitei em sinal que tínhamos chegado, como de costume, a minha avó abriu a porta em lágrimas. Tinham acabado de dizer que tinha falecido. Não chegámos a tempo.
    Deu-se a mistura de sentimentos de raiva de tristeza, de alívio por não estar a sofrer, porque ele estava a sofrer eu sabia disso. Como moramos numa aldeia as notícias espalham-se como farinha no ar. A porta de casa já ficava aberta e eu falava com as pessoas. Até aí chorava sozinha mas pouco como para alívio. Dois dias depois estava a trabalhar e estava bem, pensava eu. Pouco tempo depois, a altura das visitas a casa, pois trabalha longe, noutra cidade. A visita caiu a realidade. Então aí chorava e chorava e não aguentei.
    O vazio está cá e vai estar. Se o tempo ajuda? É capaz, acho que é o viver sem a pessoa que nos muda. Se vou sentir a falta? Claro que vou sempre.
    Se um dia vou superar? Não, nunca. Posso sorrir posso até dizer que estou bem mas é um pedaço de mim que foi embora.
    Não sofras sozinha, partilha a tua dor, abraça, tens que sentir que tens alguém que te apanhe do chão. Fala sobre isso e não deixes cair no fundo porque aí a dor consome tudo o que há em nós. A vida continua, sim continua claro que sim estamos cá para comprovar isso, se continua igual? Claro que não.

    O sentimento tão português a saudade de quem esteve e já não está e vivemos assim com o coração num nó de angústia.

    Um beijo e um abraço ainda maior

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  11. Perdi a minha mãe há 7 meses, 1 mês depois de ser mãe pela segunda vez. Tenho 22 anos. Estranhamente, lidei muito bem. Apesar da dor e da saudade, o "alivio" de acabar aquele sofrimento foi o suficiente para manter a calma e lidar bem com a perda. Mas a saudade não passa, só aumenta. O número continua no telemóvel, as vezes ainda tenho aquela coisa de ir ligar para contar a última da minha filha mais velha. A cada conquista de cada uma das pequenas, tenho aquele momento de "a mãe ia adorar ver isto!" Parece que ouço as coisas que ela dizia à querida neta, que ela adorava tanto! Mas é assim, a vida tem destas coisas. E todos temos o direito de fazer o luto sempre é por quanto tempo sentirmos que precisamos. Mesmo quando "já estamos bem", pode haver um dia em que acordamos de luto.

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  12. Minha querida Mia, não sei ao que é a dor de perder o pai ou a mãe, mas conheço a dor de perdemos alguém que é como se fosse o pai e a mãe. Perdi a minha avó há 7 anos e ainda hoje não entro na casa dela e sempre que vou para o meu refúgio, custa-me olhar para a janela da sala dela e não a ver a janela... o tempo ajuda a amenizar a dor mas vai custar sempre. Eu digo te que tens de ter força para apoiares as tuas Irmãs e mãe, mas não te esqueças de ti porque também tu precisas de apoio. Um grande beijo de força

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Obrigada pela vossa visita,
Baci
<3