6.3.17

O direito de nos sentirmos tristes.

Fotografia: Pedro Sadio

Queixar-me da vida é uma coisa que me incomoda. A sério. Penso sempre que posso estar a ser injusta e pouco grata. Gratidão é das palavras que mais uso, todos os dias, antes de adormecer, faço um exercício que me obriga a rever o meu dia e a perceber o que foi bom e menos bom, o objectivo é tentar sempre sentir-me grata por algo. Por um telefonema de alguém que perdeu 5m para me dizer um olá, pelo abraço de quem me quer bem ou simplesmente por entrar no meu carro depois das dez da noite e ir quente e segura até casa.

Nao escondi de ninguém que, nos últimos tempos, a vida tem sido uma grande puta comigo. Depois daquele período de luto em que nos isolamos do mundo, das pessoas, em que choramos tudo e tentamos perceber o motivo para passar por algumas coisas, resolvemos continuar a acreditar e a sorrir. E se eu adoro sorrir, acho que isso toda a gente sabe. Mas dou por mim a pensar em quantas vezes tenho eu sorrido às pessoas com os olhos cheios de lágrimas. Tantas. Demais.
E depois existem aqueles dias em que já nem isso conseguimos fazer, aqueles dias em que só precisamos de um colo que nos abrace, que nos passem a mão pelo cabelo e nos façam sentir que somos especiais e que o amanha será mesmo melhor.

Aos 35 anos ( quase 36 caramba!), aprendi a relativar as coisas. A não me preocupar tanto com aquilo que os outros pensam de mim, nunca gostei de fazer juízos de valor em relação a pessoas que não conheço ou que conheço mal e, por isso mesmo, não gosto que o façam comigo.
Vivemos tempos em que achamos que nos conhecemos todos muito bem uns aos outros graças a moda das redes sociais  afinal, a verdade é que partilhamos o nosso pequeno almoço, a compra que fizemos na Zara na hora de almoço, a cara feia no escritório a rezar para que cheguem logo as 18 horas e o restaurante da moda que fomos finalmente conhecer. Sei bem, até porque o meu trabalho me obriga a isso, que é importante mantermos uma boa imagem, que quem "consome" redes sociais quer ver coisas bonitas, imagens inspiradoras, sorrisos de quem "está de bem com a vida". É legítimo que assim seja até porque, para desgraças já nos basta ver o telejornal. Mas, para mim é igualmente legitimo sentir-me no direito de não fingir que estou bem, todos os dias. Sinto-me cansada de que me digam que eu sou forte e que tudo isto vai passar, estou cansada de acordar e sentir que está tudo na mesma. Eu não quero ser forte, eu não quero sentir que estou sempre numa batalha constante para vencer algo. Eu não quero ter de dizer dez vezes ao dia "está tudo bem" quando está tudo mal, tudo errado. Não quero ter de conter tantas vezes as lágrimas quando só me apetece chorar que nem uma menina.
A vida não tem de ser sempre cor de rosa e não há vergonha nenhuma em aceitar isso.

O que eu não quero mais é continuar a desiludir-me (ou a iludir-me) com as pessoas, a entregar-me a quem não me merece. Não quero continuar a sentir-me parada, vendo a vida passar-me ao lado. Não quero esquecer que eu sou a pessoa mais importante desta aventura que é a vida.

Hoje sinto-me no direito de estar triste. Sinto que me desiludiram, que me magoaram sem que eu o merecesse.
Hoje o meu coração está magoado, apertado, sem esperança. 

Hoje sinto-me no direito de estar triste. Abracei uma das pessoas que mais amo na vida com força e quis que esse abraço durasse para todo o sempre. Pedi-lhe em silêncio que não me deixasse já.

Hoje sinto-me no direito de estar triste. Quis ser capaz de dizer à minha mãe que vai ficar tudo bem mas o que eu mais queria naquele momento era que ela me desse colo.

Hoje sinto-me no direito de estar triste mas amanhã é um novo dia e eu quero acreditar que só pode ser melhor. 

Com amor,
 Mia 



13 comentários:

  1. Boa noite. No outro dia deixei um comentario no seu instagram a dizer que tem cara de boa pessoa, e continuo a achar.
    A vida tb n me tem sido facil, perdi a minha mãe no dia 8 de janeiro de 2016 com um cancro e tive de por o meu pai num lar no dia 9 de janeiro de 2017. Tenho uma avó materna com quase 97 anos, é linda e super querida mas custa-me muito estar com ela pq só me lembro da minha mãe. A minha mãe se fosse viva fazia anos amanha, e eu quero ter o direito de chorar e estar triste sem aparecer sempre alguem a dizer que vai ficar tudo bem... não vai...
    Beijinhos. Marta Sousa

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  2. Mia nunca comentei nada. Sigo há muito tempo o teu blogue e adoro a parte "fútil" que partilhas...adoroooo! Mas nunca nunca senti tanto algo escrito/partilhado por ti como hoje. Não sei se ajuda, mas não és a única a sentir isso...e sim, tens (temos) todo o direito de nos sentir assim. Faz parte...não temos sempre que ser fortes. Obrigada por esta partilha. Um abraço

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  3. Mia um abraço do tamanho do mundo e um beijo gigante <3 e sim todos temos o direito de estar e ficar tristes! Há que ver a tempestade para depois desfrutar do sol!����

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  4. Não tem mesmo mal nenhum mostrar que estamos tristes...
    Chora meu bem, porque amanhã será um novo Dia de sol ☀️
    LOVE U Mary

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  5. Mia esse sentimento de luto tem de ser feito e um abraço apertado de uma mãe vale mais que mil anéis da cartier!Mas lembra te que quando o Universo achar que estás preparada o sol vai entrar radioso e aquecer o teu coraçãozinho que tem todo o direito de se sentir hoje assim beijinhos

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  6. Mia estou igualmente a passar por uma fase na minha vida assim,triste. Tento fazer o meu teatro todos os dias quando saiu da porta da minha casa para fora,fingir que está tudo bem,sorrir,ser bem disposta mas a tristeza essa está cá e quando volto para casa volta ao de cima ainda com mais intensidade. Não tenha problemas em escrever estes desabafos porque na verdade é uma pessoa como outra qualquer,tem uma vida normal,com altos e baixos e digo lhe também uma coisa,quando li este post não me sinto menos triste por perceber que não estou sozinha no mundo mas fico com a minha dor mais suavizada e penso "afinal há mais pessoas com problemas na vida" e parece que custa menos. Um grande beijinho e como costumo dizer as minhas amigas espero que um dia ainda nos riamos de tudo isto que passou e ficou resolvido.

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  7. Um grande beijinho querida Mia. E acredita sim que o amanhã só pode ser melhor ❤

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  8. Viver um dia de cada vez, vergonha é nenhuma de expressar o que se sente, porque nada nesta vidas é por acaso, talvez seja uma forma de reflexão ! É bom por vezes analisar as coisas . São prioridades que a propria idade permite e nos faz acrescer e deixar para lá o que não importa mais. Ás vezes temos que nos apegar de lembranças, momentos... e até de sentimentos. Força Mia Confia sempre no teu coração . Uma beijoka enorme .
    https://youtu.be/Y5EvOuUB7Lo

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  9. Adorei...e, sim sempre achei que as redes sociais não servem só para mostrarmos o lado "bom" da vida...se não nos sentimos bem , é bom partilharmos.....
    Tentei durante 8 anos engravidar sem sucesso, fiz 5 FIV( fertilização in vitro) sem sucesso, mas quando fui obrigada a ir ao psicologo , ele deu-me alta porque disse que eu estava optima para quem passou por isto tudo( e acreditem que é violento) e porquê? porque sempre falei do "meu problema" como toda a gente....nunca escondi..mesmo que muitos não compreeendessem e por vezes até me deparava com comentários um pouco retrogadas e irritantes....mas isso aliviava-me.... espero que essa fase passe depressa, mas, entretanto, fale dela....nem todos compreendem, mas faz-nos bem...beijinhos com carinho....

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  10. Mia comecei a segui-la à pouco tempo, mas gosto muito de ver os seus insta stories, ler as suas publicações, ontem quando li o post "O direito de nos sentirmos tristes", fiquei a pensar, foi tão profundo, senti como se a conhece-se há anos e decide deixar uma mensagem como se de uma amiga se trata-se!
    Querida Mia, temos o direito de estar triste, assim como temos o direito de estar feliz, ninguém tem nada a ver com isso! Mas... Devemos sempre que vier essa sombra de tristeza, erguer a cabeça, respira fundo e pensar... O que!?!? Eu estou aqui hoje, com saúde, posso me levantar ir trabalhar, tenho trabalho! Posso passear as minha malas, os meus relógios, posso compra-los!
    Ainda não percebi o que se passou o ano passado para estar de luto com a vida, mas... mas ainda tem a sua mãe, pode ligar-lhe, pedir-lhe colo, abraça-la, enche-la de beijos. Tem os sobrinhos, os irmãos, família, os amigos! Tanta coisa boa!
    É nessas coisas que devemos pensar quando aqueles dias estão mais cinzentos.
    Sabe Mia há um ano atrás quando estava a pensar em engravidar descobri que tinha cancro no colo do útero, depois de ser operada, fazer tratamentos, fiquei a saber que não podia ter filhos, todo parecia preto, durante 7 meses a vida passou ao lado, quando regressei parecia que tinha imigrado, passado um ano que tudo terminou só peço uma coisa todos os dias, SAUDE, para poder sair estar com a minha afilhada, com a minha mãe com a minha família, o meu marido, ir trabalhar, poder passear a minha centena de sapatos e malas... Aproveitar a vida! De 6 em 6 meses quando se vai repetir os exames vem uma dor de barriga um aperto e quando a médica diz "Márcia está tudo normal" só me apetece sair do IPO e agradecer a vida! Tenho 33 anos, casada à 5 anos, tenho um bom emprego, um bom marido, uma boa situação financeira, mas nada interessa se não tiver saúde! Acredite!
    Mia não estou a dizer que está a ser injusta, mas é nas coisas boas que temos e que nos devemos agarrar todos dos dias.
    Um beijo e X coração bem apertadinho <3

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  11. De coração apertado depois de ler isto...

    P.s: Passatempo a decorrer no blog! :*

    Um beijinho,
    Mónica Rodrigues dos Santos
    http://cupcakewomen.blogspot.pt/

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Obrigada pela vossa visita,
Baci
<3